Mulheres debatem trabalho e autonomia econômica

Foto: Yasmin Thomas

Foto: Yasmin Thomaz

A mesa foi coordenada por Táli Pires, militante da Marcha de SP, que em primeiro lugar nos contou quem foi Laudelina de Campos Melo (nome da tenda onde ocorreu a atividade). Líder feminista, lutadora pelos direitos da população negra e das empregadas domésticas. Nasceu em 1904. Foi trabalhadora doméstica desde a infância, denunciando o racismo. Chegou a ser presidente do Clube 13 de maio. Criou a associação de empregadas domésticas.

As companheiras Carmen Foro e Silvia Leon falaram sobre suas experiências. Carmen, que foi organizadora das duas últimas Marcha das Margaridas e é vice-presidenta da CUT (Central Única dos Trabalhadores), falou sobre as trabalhadoras do campo, sua realidade e reivindicações). Enquanto Silvia Leon, membra da Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA), contou sobre a condição das trabalhadoras sindicalistas das cidades. As duas falam demonstram a necessária aliança entre as mulheres da cidade e do campo. Outras companheiras na plenária chamaram a atenção para a importância do trabalho das/dos indígenas e para a situação precária em que estão vivendo, como em Dourados, no Mato Grosso do Sul.

O feminismo vem questionando o sistema econômico vigente que nos leva a uma condição de submissão opressão e profunda exploração. O capitalismo não nos permite conquistar efetivamente a autonomia econômica. Em momentos de crise econômica mundial, o corte geral incide mais sobre as mulheres; retirada de direitos, diminuição de postos de trabalho e precarização. Além disso, o capitalismo nos faz acreditar que nosso trabalho é uma mera ajuda; e naturaliza a divisão sexual do trabalho. Ele invisibiliza o trabalho doméstico realizado gratuitamente pelas mulheres para se reproduzir. Pois nós reproduzimos a força de trabalho cotidianamente, desde a função social da maternidade, até a produção do viver cotidiano.

Uma das principais disputas em relação ao tema das mulheres, colocada pelas expositoras sindicalistas e pelas companheiras presentes na plenária, foi a importância de ampliarmos o conceito de trabalho, incluindo o trabalho doméstico e reconhecendo o valor que este trabalho tem. A produção de riqueza dos países é mais que o mundo do trabalho, mas a produção do viver, que é realizado gratuitamente pelas mulheres. A sociedade valoriza apenas o trabalho produtivo. É preciso valorizar e socializar o mundo dos cuidados, pois ele tem um imenso valor para toda a sociedade, incluindo o Estado e os homens. Precisamos valorizar este trabalho e com isso pressionar para que as tarefas domésticas sejam compartilhadas, não só com homens, mas com o Estado também. O capitalismo acirrou a separação entre público e privado. O nosso feminismo quer romper com esta divisão.

O trabalho das mulheres não vale nada. Só tem valor o que se vende, o que vai para o mercado. As mulheres trabalham o dia todo e no final do dia ninguém reconhece; não só no âmbito da família, mas não é reconhecido pela sociedade e pelo Estado.  “O mundo é assim mesmo”, naturaliza a divisão sexual do trabalho. Na esfera pública, muitas vezes as mulheres continuam na função dos cuidados, trabalhando enquanto enfermeiras, professoras, e também estas funções são desvalorizadas socialmente e salarialmente.

Além de trabalho formal digno e com seguridade social, há uma sobrecarga de trabalho para as mulheres, pois elas acumularam o mundo público do trabalho e o mundo privado das tarefas domésticas. A dupla jornada gera um desgaste físico e emocional, e dificulta a participação das mulheres na vida política e cultural. O cuidado não deve ser colocado como uma demonstração de amor das mulheres, mas um trabalho que deve ser socializado.

No campo, as políticas públicas para as mulheres são difíceis de serem acessadas, desde o acesso à terra, até o crédito. Nós mulheres trabalhamos na maior parte da produção. As mulheres preparam a comida, plantam, comercializam e os recursos ficam nas mãos dos homens.

As mulheres têm investido em educação, e mesmo tendo em média dois anos há mais de estudo que os homens ainda ganham salários menores, pela mesma tarefa. As sindicalistas brasileiras fizeram uma campanha, “trabalho igual, salário igual”. No entanto, o salário não é a única fonte de autonomia econômica das mulheres.  Isso depende do acesso a serviços públicos e acesso a bens comuns. Por isso, a nossa luta vai para além da autonomia econômica, e passa pela economia solidária, nova gestão do trabalho, redução da jornada de trabalho, acesso à terra, licença maternidade, direito a creche, intercâmbio de práticas locais, água, sementes, apoio para produção, acesso ao crédito, reorganização do trabalho doméstico, participação política, seguridade social, previdência, saúde e educação públicas.

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